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Filosofia da Terra

Furar o Nevoeiro da Ideologia Burguesa. O Bem, a Verdade e o Belo - Paradigmas Unidos da Vida. Um Olhar e uma Voz Diferentes, Livres, Progressistas e Revolucionárias. Filosofia, Artes, Política, Acontecimentos, Reflexões.

Paixões por Leonel Messi e "Objectividade" Matemática 

 
 
Mesmo não dando muita importância ao futebol e sem acreditar muito na objectividade estatística aplicada ao valor dos desportistas, dá que pensar. E só por dar que pensar para além das quatro linhas do campo onde corre uma bola redonda, mas que é mais redonda só para alguns - simbolizando a vida real -, é que publico isto. 
Se no futebol, as paixões cegam e deixam-se manipular por interesses ocultos, cuja objectividade é a da medida do caudal do dinheiro que corre para certos bolsos, o que se dirá da política! 
E quando os amores vão para coisas insignificantes face ao que acontece na Palestina, na Síria e na Ucrânia, as pessoas ficam cegas e elegem ídolos que tomam conta das tristes vidas dos que vivem para adorar a figura de pessoas, eventualmente simpáticas e talentosas mas que não merecem assim tanta atenção, e cujo poder hipnótico sobre as massas é simultaneamente aproveitado e exagerado por interesses económicos, políticos e ideológicos mais ou menos ocultos. 
Com tanto futebol, não há lugar na cabeça de muitas pessoas para ideias e actividades políticas, sociais, educativas e culturais autênticas. Associado ao negócio que há por detrás do futebol, percebe-se por que lhe é dada tanta visibilidade.
Quem menos tem culpa disto é Messi, que até desvalorizou o prémio. Mas se o futebol é um espelho da realidade, as coisas continuam muito mal para uma realidade distorcida, e mesmo opaca, à semelhança do seu espelho.
 
 

"O alemão Toni Kroos terminou o Mundial como primeiro classificado no Índice de Desempenho Castrol, que em parceria com a FIFA avalia o desempenho de cada jogador no Mundial 2014, utilizando fórmulas matemáticas. 
 

Através deste medidor, a Castrol fez um top 10 e um onze ideal da prova, em que entram o sportinguista Marcos Rojo, mas, curiosamente, o nome de Lionel Messi, eleito pela FIFA o melhor jogador do Mundial, não faz parte da lista.  

 

Top 10:
 
 

Toni Kroos, Alemanha (9,79); Arjen Robben, Holanda (9,74); Stefan de Vrij, Holanda (9,7); Mats Hummels, Alemanha (9,66); Thomas Müller, Alemanha (9,63); Karim Benzema, França (9,6); Oscar, Brasil (9,57); Thiago Silva, Brasil (9,54); Marcos Rojo, Argentina (9,51); e Ron Vlaar, Holanda (9,48).
 

 

Equipa ideal:

 

Guarda-redes Manuel Neuer - 9,33 

 

Defesas: De Vrij - 9,7; Mats Hummels - 9,66; Thiago Silva - 9,54; Rojo - 9,51 

 

Médios: Toni Kroos - 9,79; Oscar - 9,57; Lahm - 9,39; James Rodriguez - 9,37 

 

Avançados: Robben - 9,74; Muller - 9,63"

A Causa LGBT e o Padrão dos Descobrimentos

 

Numa fotografia postada no Facebook com alguns famosos apoiantes da causa Homossexual e sexualidades alternativas (LGBT), aparece, infelizmente para eles, o Padrão dos Descobrimentos. 

Alguém comentava que estava ali a mais. Muitos mais comentários se seguiram contra o Padrão. Na fotografia ou na cidade? Esta gente contestatária (ou já suficientemente integrada pela fase comercial do capitalismo?), cujos motivos prezo por uma questão básica do direito à diferença na realização da sua vida, ainda não aprendeu com os erros e crimes do passado.  

Quando os protestantes se emancipavam da tutela do Papa decidiram livrar as igrejas dos símbolos católicos. Foi uma catástrofe cultural e artística. 

Claro que agora seria difícil fazem o mesmo. Mas é preciso lembrar-lhe a ideia, também básica, mas geralmente esquecida, de que não somos só nos, ou eles, que existimos, no passado, no presente e no futuro, e que a História é, por assim dizer, a nossa mãe, a nossa pátria.

 

 

Não sejam iconoclastas! O Padrão dos Descobrimentos por causa do colonialismo, o Panteão de Roma por causa da escravatura, o Convento de Mafra por causa do Absolutismo, o Palácio da Pena por causa do romantismo real indiferente à pobreza do povo, o Palácio de Versailles por causa da ostentação dos reis, Os Lusíadas por causa da glorificação dos colonizadores, A Divina Comédia por causa dos muçulmanos e dos judeus, o Mosteiro de Alcobaça por causa da alienação religiosa, O Coliseu de Roma por causa dos cristãos atirados aos leões, a arena do Campo Pequeno por causa dos touros atirados aos cristãos, o Centro Cultural de Belém por causa de Cavaco Silva, o Pavilhão de Portugal por causa do nacionalismo, etc. Depois ficaríamos com quê?

 

sacred-music

 

Eu, como ateu, não posso deixar de reconhecer a extraordinária riqueza da produção artística, sobretudo na música e nas artes plásticas, mas também na literatura, inspirada pela religião. em especial pela pagã grega e pela cristã mas também pela indu.

 

 

Mesmo que um dia a fé desaparecesse, e com ela a mistificação inerente à arte religiosa, teria-nos deixado tesouros de expressividade, imagens, sentimentos ideias e mitos imperecíveis pela sua contribuição para a sensibilidade plástica e pela sua capacidade de evocação dos grandes problemas e questões que sempre o Homem se pôs.

 

Penso nos mitos profundos das tragédias gregas, nas catedrais góticas e barrocas (obras de arte totais), nas grandes obras pictóricas do Renascimento, Maneirismo e Barroco, na música sagrada de Bach, de Mozart e de Olivier Messiaen, entre muitas outras obras humanas.

http://youtu.be/ChUdxfT0EtI

 

 

Uma Pergunta aos Portugueses: Sabem Quem São? A que País, a que Cultura Pertencemos Nós? 

Estes são Portugueses... Suponho eu.

























Mas estas e estes são a nossa verdadeira cultura 









 

 A Mulher de Barbas Vence o Festival da Eurovisão 

 
Há valores que não entendo em certas pessoas de esquerda, que parecem trocar de lugar com a direita. Antes era uma esquerda nocturna de hábitos horários mas luminosa de subversiva alegria, que não fazia por chocar mas tão somente viver em desacordo com os padrões morais, de gosto e de beleza dominantes, hipocritamente burgueses. 
Era a época do sexo, drogas e rock'n rol, dos travestis, dos acampamentos selvagens e da existência no momento. Agora, são os oligarcas da velha e gay Europa e os seus políticos e jornalistas que elaboram a publicidade erótica, que pagam propaganda política com pornografia, que financiam a legalização da produção e venda das drogas leves, que investem nos festivais pseudo libertinos de rock para alienação cultural dos alunos, estudantes e adultos em crise de crescimento, que saúdam as minorias sexuais e aplaudem, numa atitude de tolerância e de completa abertura de espírito, mulheres de barba (ou homens de mamas) a cantar e a vencer um certo Festival da Eurovisão, quando antes eram apenas curiosidades de feira. 
Por mim, sem o mínimo de ironia, acho tudo isto perfeitamente aceitável e revelador do maior respeito pelos direitos humanos. Se alguém se arroga a dizer que há direitos mais importantes, como o direito ao trabalho, à saúde, à educação, dir-lhe-ei que não são mais importantes. São tão importantes, não mais. Nada é mais importante do que o direito à diferença e à liberdade de ser o que se quiser ser. 
Sei bem que uma mulher barbuda é daquelas senhoras que não me dá um prazer especial em ver, como também não aprecio homens de mamas alçadas, grafitos e murais nas ruas para apreço de quem engole tudo e não tem o sentido do belo, ou a calçada à portuguesa quando não tem padrões, de tripas à moda do Porto, de francesinhas que não sejam de Paris, de couratos de feira, de três auto-estradas a ligar o Porto a Lisboa, do caos urbanístico das segundas habitações com jardins frequentados por querubins rechonchudos e águias do Benfica ou leões petrificados do Sporting, de arquitectura moderna quadriculada, quando a forma se rendeu completamente à função, e de edifícios pós-modernos com um bom sortido de mármores policromáticos e colunatas encimadas por bolas de futebol e nossas senhoras de Fátima. Mas quem sou eu para ditar as modas! Ser tolerante, no nosso tempo, é aceitar o que vem, o que se manifesta com a sua total liberdade. 
A única coisa que lamento em mim é ser incapaz de gostar de tudo, de ser uma esponja, uma máquina de filmar sôfrega que se alimenta do espectáculo do mundo, como fazia Álvaro de Campos, esse aventureiro hiper-burguês amigo daqueles para quem até os pais têm preço, para quem até a pederastia e a prostituição infantil nos vãos de escada eram coisas supernas, tanto como um altar a uma deusa do perdão e a sede de um banco de investimento onde o trabalho se sublimou em moeda e até no valor virtual do mundo. 
Não sou capaz disso: tenho, tristemente, intolerantemente, as minhas idiossincrasias. Identifico-me mais com a masculinidade do Putin (a ditadura do corpo, como legendava o Le Monde) do que com a nossa ocidental mulher de barbas (a ditadura da alma cristã amorosa com pilosidades na sua bondade transcendente e divina), um belo e imortal emblema da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Se não estou bem, que me mude.
Sei que estou para aqui a misturar cousas e lousas, mas devem-me entender: nada tenho contra a senhora mas tenho muito contra a manipulação das consciências. Quando os direitos do trabalho ficam à porta das empresas e do Estado, quando a liberdade de expressão não entra nos grandes meios de comunicação, quando a paz é para os políticos ao serviço do capital um eufemismo da guerra, quando ao lado do ensino técnico-científico vai a procissão do embrutecimento cívico, cultural, artístico e moral, ter uma mulher de barbas como heroína da liberdade e ícone da tolerância é ver os poderes ocidentais sugerirem-nos o seguinte: tomai lá, povo, todas as vossas liberdades sexuais, estilísticas e artísticas, pois a liberdade é também a dos patrões, da compra e venda do trabalho, dos negócios das armas e da arte da guerra.
A nossa Europa não é nem feminina nem masculina: é transgenérica. É, pois, herdeira do grande imperador romano Nero. E é assim, apesar de mim próprio, que ela está bem.
Por isso, fiquei triste ao ler este editorial num sítio de esquerda, até porque a mulher de barbas é um símbolo da luta dos valores ocidentais contra os bárbaros russos:     
 
 

"DISGUSTING 

Em outros tempos a Europa era considerada por muitos como a matriz da cultura, da civilização, da ciência e das artes. Esses tempos estão acabados, agora o seu processo de decadência civilizacional acelera-se. E isso acontece também ao nível dos fenómenos de superestrutura. Manifestações repulsivas como o da mulher barbada que ganha um concurso na Eurovisão são exemplo disso. Triste Europa."

 

 
“A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.”
“Se não receio o erro, é porque estou sempre disposto a corrigi-lo”
“O homem desiludido e pessimista é um ser inerte, sujeito a todas as renúncias, a todas as derrotas – e derrotas só existem aquelas que se aceitam.”


“A cultura tem que reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a humanidade tomar consciência de si própria.”


“Conseguirá a Humanidade, num grande estremecimento de todo o seu imenso corpo, tomar finalmente consciência de si mesma, revelar a si própria a sua alma colectiva, feita do desenvolvimento ao máximo, pela cultura, da personalidade de todos os seus membros?”


“A obra de Newton, contemporâneo de Bach, tem, na física, o mesmo carácter de majestade, de segurança, de universalidade da obra de Bach em música.”

"As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pânatano estéril da vida sem formas.Benditas as ilusões, a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão, nada de sublime teria sido realizado, nem a catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileo".


 «O que é o homem culto? É aquele que:

1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.

Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»

Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)
 

Bento Jesus Caraça - GALILEO GALILEI

GALILEO GALILEI

 

VALOR CIENTÍFICO E VALOR MORAL DA SUA OBRA!(*)

 

(por Bento Jesus Caraça)

 
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:
No dia 22 de Junho de 1633, faz hoje trezentos anos, quem pudesse ter penetrado numa certa sala do convento de Minerva, em Roma, teria assistido a uma cena singular.
Um velho de setenta anos ouvia, perante um tribunal constituído por dez cardeais, a leitura deste documento estranho:
"Nós (seguem os nomes e os títulos dos cardeais) pela misericórdia de Deus, Cardeais da Santa Igreja Romana, delegados especialmente como Inquisidores gerais da Santa Sé Apostólica, contra a maldade herética, da República Cristã.
"Sendo certo que tu, Galileo, filho de Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, foste denunciado em 1615 a este Santo Ofício por teres como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns, que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e que a Terra se mova, ainda de movimento diurno; por, acerca da mesma, teres correspondência com alguns matemáticos da Germânia; por teres dado à estampa cartas intituladas "Das manchas Solares", nas quais explicavas a mesma doutrina como verdadeira; por, às objecções que às vezes te faziam tiradas da Sagrada Escritura, responderes interpretando a dita Escritura, conforme o teu sentido;
"E tendo sucessivamente sido apresentada cópia dum manuscrito, sob a forma de carta, a qual se dizia ter sido escrita por ti, a um tal teu discípulo, e nessa, seguindo a posição de Copérnico, se conterem várias proposições contra o verdadeiro sentido e autoridade da Sagrada Escritura;
"Querendo por isto este Sacro Tribunal dar providências contra a desordem e o dano que de aqui provinha e andava crescendo com prejuízo da Santa Fé;
"Por ordem de Nosso Senhor e dos Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais desta Suprema e Universal Inquisição, foram, pelos Qualificadores Teólogos, qualificadas as duas proposições da estabilidade do Sol e do movimento da Terra do seguinte modo:
"Que o Sol seja centro do mundo e imóvel de movimento local, é proposição absurda e falsa em filosofia, e formalmente herética, por ser expressamente contrária à Sagrada Escritura;
"Que a Terra não seja centro do mundo nem imóvel, mas que se mova, ainda de movimento diurno, é igualmente proposição absurda e falsa em filosofia, e considerada em teologia ad minis errónea em Fé.
"Mas querendo-se naquele tempo proceder para contigo com benignidade, foi decretado na Sacra Congregação reunida diante de Nosso Senhor a 25 de Fevereiro de 1616, que o Eminentíssimo Cardeal Bellarmino te ordenasse que tu devesses totalmente abandonar a dita opinião falsa e que, recusando tu tal fazeres, te fosse pelo Comissário do Santo Ofício intimado que deixasses a dita doutrina e que não pudesses ensiná-la a outros, nem defendê-la, nem tratar dela, e que, se não te conformasses com a intimação, fosses encarcerado;
"Em execução do mesmo decreto, no dia seguinte, no mesmo palácio e na presença do acima dito Eminentíssimo Senhor Cardeal Bellarminio, depois de teres sido pelo mesmo Senhor Cardeal benignamente avisado e admoestado, te foi pelo Comissário do Santo Oficio daquele tempo intimado, com notário e testemunhas, que totalmente devesses abandonar a dita falsa opinião e que no futuro a não pudesses sustentar, nem defender, nem ensinar de qualquer maneira, nem pela voz nem pelo escrito, e tendo tu prometido obedecer, foste mandado em paz.
"E a fim de que tolhesse inteiramente tão perniciosa doutrina e não andasse caminhando mais, com grave prejuízo da verdade católica, saiu um decreto da Sacra Congregação do Índice, por meio do qual foram proibidos os livros que tratam de tal doutrina e foi esta declarada falsa e totalmente contrária à Sagrada e Divina Escritura.
"E tendo ultimamente aparecido aqui um livro, estampado em Florença no ano passado, cuja inscrição mostrava que fosses tu o seu autor, dizendo o título: "Diálogos de Galileo Galilei acerca dos dois Máximos Sistemas do Mundo, Ptolomaico e Copernicano"; e informada depois a Sacra Congregação de que, com a impressão do dito livro, cada vez mais tomava pé e se disseminava a falsa opinião do movimento da Terra e da estabilidade do Sol; foi o dito livro diligentemente considerado e nele achada expressamente a transgressão do preceito que te foi intimado, tendo tu no mesmo defendido a opinião já condenada e na tua face por tal declarada, acontecendo que tu, no dito livro, procuras persuadir que a deixas como indecisa e expressamente provável, o que também é erro gravíssimo, não podendo de nenhum modo ser provável uma opinião declarada e definida por contrário à Escritura Divina.
"Por isso, por nossa ordem foste chamado a este Santo Ofício, no qual, com o teu juramento, examinado, reconheceste o livro como por ti composto e dado à estampa. Confessaste que, cerca de dez ou doze anos depois de te ter sido feita a intimação como acima, começaste a escrever o dito livro; que pediste autorização para o estampar sem porém significares àqueles que te deram semelhante faculdade que te tinha sido ordenado não sustentar, defender, nem ensinar de qualquer modo tal doutrina.
"E parecendo a nós que tu não tinhas dito inteiramente a verdade acerca da tua intenção, julgamos ser necessário proceder a um rigoroso exame de ti; no qual sem porém prejuízo algum das coisas por ti confessadas e contra ti deduzidas como acima acerca da tua intenção, respondeste catolicamente.
"Portanto, vistos e maduramente considerados os méritos desta tua causa, com as supraditas tuas confissões e escusas e quanto de razão se devia ver e considerar, chegámos contra ti à infra-escrita sentença:
"Invocando o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da gloriosíssima Mãe sempre virgem Maria;
"Por esta nossa definitiva sentença, a qual, pro tribunali, de conselho e parecer dos Reverendíssimos Mestres de Sacra Teologia e Doutores unius utriusque iuris, nossos consultores, proferimos nestes escritos, na causa e causas pendentes ante nós entre o Magnífico Carlo Sinceri, doutor unius utriusque iuris, Procurador Fiscal deste Santo Ofício, duma parte e tu, Galileo Galilei ante-dito, réu aqui presente, inquirido, processado e confesso como acima, da outra parte:
"Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, Galileo supra-dito, pelas coisas deduzidas no processo e por ti confessadas como acima, te tornaste veementemente suspeito de heresia, a saber, por teres sustentado e crido doutrina falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro da Terra e que não se mova de oriente para ocidente e que a Terra se mova e não seja centro do mundo, e que se possa ter e defender por provável uma opinião depois de ter sido declarada e definida por contrária à Sagrada Escritura;
"E consequentemente estás incurso em todas as censuras e penas dos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
"Das quais nos apraz absolver-te desde que primeiro, com coração sincero e fé não fingida, diante de nós, abjures, maldigas e detestes os supra-ditos erros e heresias e qualquer outro erro e heresia contrária à Igreja Católica e Apostólica, pelo modo e forma que por nós te será dada.
"E, a fim que este teu grave e pernicioso erro e transgressão não fique de todo impune, e sejas mais cauto para o futuro e exemplo a outros para que se abstenham de semelhantes delitos, ordenamos que, por público édito, seja proibido o livro dos "Diálogos de Galileo Galilei".
"Te condenamos ao cárcere formal neste Santo Ofício ao nosso arbítrio; e por penitência salutar te impomos que pelos três próximos anos digas uma vez por semana os sete salmos penitenciais, reservando para nós a faculdade de moderar, mudar ou levantar, no todo ou em parte, as supra-ditas penas e penitencias.
"E assim dizemos, pronunciamos, sentenciamos, declaramos, ordenamos e reservamos, nisto e em tudo o mais, do melhor modo e forma que de razão podemos e devemos." (Seguem as assinaturas de sete dos dez cardeais).
Seguidamente o acusado ajoelhou e, com as mãos sobre os Evangelhos, leu em voz alta este outro documento, para esse fim expressamente confeccionado por mão alheia:
"Eu, Galileo Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de minha idade setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de vós Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, inquisidores gerais em toda a República Cristã contra a maldade herética;
"Tendo diante dos meus olhos os sacrossantos Evangelhos, os quais toco com as minhas próprias mãos, juro que sempre cri, creio agora, e com a ajuda de Deus crerei para o futuro, tudo aquilo que afirma, prega e ensina a Santa Igreja Católica Apostólica.
"Mas visto que, por este Santo Oficio, por haver eu (depois de me ter intimado juridicamente pelo mesmo que abandonasse totalmente a falsa opinião que o Sol seja centro do mundo e que não se mova e que a Terra não seja centro do mundo e que se mova, e que não pudesse afirmar, defender nem ensinar de qualquer modo, pela voz ou pelo escrito, a dita falsa doutrina, e depois de me ter sido notificado que a dita doutrina é contrária à Sagrada Escritura) escrito e dado à estampa um livro no qual trato a mesma doutrina já condenada e empregado argumentos com muita eficácia a favor dela, sem dar nenhuma solução, fui julgado veementemente suspeito de heresia, por haver dito e crido que o Sol seja centro do mundo e imóvel, e a Terra não seja centro e se mova;
"Portanto, querendo eu afastar da mente das Eminências Veneráveis e de todo o fiel cristão esta veemente suspeição, justamente de mim concebida, com coração sincero e fé não fingida, abjuro, amaldiçoo e detesto os supraditos erros e heresias, e geralmente qualquer outro erro, heresia e seita contrária à Santa Igreja; e juro que para o futuro não mais direi nem afirmarei, pela voz ou pelo escrito, coisas tais que por elas se possa haver de mim semelhante suspeição; mas, se conhecer algum herético, ou que seja suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Oficio, ou ao Inquisidor ou Ordinário do lugar onde me encontrar.
"Juro ainda e prometo cumprir e observar inteiramente todas as penitências que me foram impostas, ou vierem a ser, por este Santo Oficio;
"E, no caso de transgredir algumas das ditas promessas ou juramentos, o que Deus não queira, submeto-me a todas as penas e castigos pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes impostas e promulgadas.
"Assim Deus me ajude e estes seus santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos.
"Eu, Galileo Galilei, abjurei, jurei, prometi e me obriguei como acima; e, em fé do verdadeiro, pela minha própria mão subscrevi a presente cédula da minha abjuração e a recitei de palavra em palavra, em Roma, no convento de Minerva, neste dia 22 de Junho de 1633."
Quando terminou a leitura deste acto de abjuração, acabara de viver-se um dos momentos mais dramáticos da história da ciência e da história do homem no mundo ocidental.
O choque violento entre duas ideias exigira, na sua fase culminante, o esmagamento, o rebaixamento aviltante, muito para além das fronteiras do humano, de um homem de ciência, um gigante cuja obra se levanta, aos nossos olhos de homens do século XX, como um monumento luminoso na linha incerta que separa duas épocas.
O que é que produzira uma tão grande brutalidade na luta, e porque razão encontramos uma congregação, órgão da Igreja Católica, obrigando um homem a tão desumana humilhação.
Vamos procurar responder a estas perguntas, pondo em evidência a verdadeira significação, do duplo ponto de vista moral e científico, dos factos que acabamos de recordar.
Frans Masereel, o poderoso artista criador de imagens, condensou, numa sucessão emocionante de gravuras, a história da Ideia. História comovente, que começa com a criação duma divindade nua, saída bruscamente da cabeça do homem, num lampejo inspiração, e a acompanha nas várias fases da sua vida entre outros homens, desde o momento em que ela, desembaraçando-se das vestes com que a multidão quer encobrir as suas formas, se lança numa correria louca pelo mundo, até àquele outro momento em que, voltando para junto do homem que a criou, o encontra exaltado na criação de nova divindade. Momento trágico esse, vida das Ideias, momento que decide do seu destino. Umas morrem enquanto se realiza triunfalmente a criação de outras - e é esse o desfecho pessimista que nos apresenta Masereel; outras porém resistem a essa prova suprema e continuam a sua carreira no mundo. De que lutas é cheia essa carreira! Quantos obstáculos há que vencer, de quantas ciladas que fugir, quantas tentativas de assassinato que evitar!
São essas ideias imortais que fazem o progresso da humanidade, e é na força com que se batem por elas que reside o valor moral dos homens e das gerações.
Mas há ainda outra categoria de ideias - aquelas que, não tendo poder de vitalidade que Ihes permita viver após a criação de outras, conseguem no entanto sobreviver-se a si próprias, transformando-se em fantasmas do que eram. Esse grupo das ideias fantasmas é ,aquele em cujo nome se fere a luta contra as ideias criadoras. A sua fronte está virada para o passado, e é para o seu passado que querem levar as sociedades, esperando assim reencontrar o ambiente que Ihes restitua a vida que perderam.
Que homem há que não tenha notado à sua volta o efeito paralisador das ideias fantasmas e as não tenha sentido a batalhar mesmo dentro de si próprio, procurando subjugá-lo, arrasta-lo para aquelas regiões sombrias onde não chega a luz fulgente das ideias imortais?
Que homem há, mesmo entre os de espírito mais aberto e mais livre, que não tenha sentido essa luta, mormente neste atormentado começo do século XX, em que um monstro na agonia, para se dar a ilusão de que ainda tem direito a viver, faz apelo a um imenso cortejo de espectros, de ideias fantasmas, para que elas Ihe propiciem e justifiquem todos os arrancos senis, todas as vilanias?
E quantas vezes, na luta cruenta e desleal que esse cortejo promove, julgam as ideias fantasmas certa a vitória, porque conseguiram espetar as adversárias nas pontas das baionetas, ou amarra-las ao potro da tortura!
Pretensão falaz! Para as proscritas. abrem-se de par em par as Portas das consciências, e daí, reconfortadas por um calor vivificante, surgem depois, mais belas no esplendor da sua nudez, mais no seu poder criador.
É a história, duma dessas ideias imortais - a ideia do heliocentrismo - que desejo traçar aqui, procurando acompanhá-la, e de caminho a alguma outras, a cuja sorte ela esteve ligada, nas fases mais significativas da sua vida."
* BENTO DE JESUS CARAÇA 1901-1948
(Extracto da Conferência realizada na Universidade Popular Portuguesa em 22 de Junho de 1933)