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Filosofia da Terra

Furar o Nevoeiro da Ideologia Burguesa. O Bem, a Verdade e o Belo - Paradigmas Unidos da Vida. Um Olhar e uma Voz Diferentes, Livres, Progressistas e Revolucionárias. Filosofia, Artes, Política, Acontecimentos, Reflexões.

 

 

Não sei se 4.000 milhões de euros em exportações para a Rússia é pouca coisa para a Alemanha. Mas é mais ou menos isso que esta vai perder com as sanções decretadas pelos Estados Unidos e seguidas pela sua amiga ou amante UE. A esse montante vai ter que somar-se as despesas com a importação energética da Rússia e o facto de haver um certo número de empresas alemãs instaladas na Rússia ou que negoceiam com ela. Um óptimo negócio para os EUA, que podem assim exportar mais para a Europa Ocidental, até porque a sua moeda vale muito menos do que o euro. O saldo positivo da balança de pagamentos vai inclinar-se para os EUA e vai ser difícil criar empregos na nossa fiel Europa. Portugal não recebe energia da Rússia mas exporta mais de trezentos milhões de euros e o que acontece no resto da Europa afeta-nos. Espero que este prognóstico não se verifique. Vermos no fim do jogo. 

O João Pinto do Porto é que sabe, não o Cameron, não o Hollande. Nem sei como a Merkel se mete nisto, que era a única com tino até agora.

 

 

No entanto, a maioria do pessoal que anda a comentar na rede (vulgo 'net') concorda, como se gostasse de guerras. E é que gosta mesmo!

Contudo, não vale a pena contra-comentar nesses sítios mal frequentados. É dar oportunidade para gente ignara e malevolente responder dando-lhe a ilusão de que tem cérebro na cabeça. É deixá-los a falar sozinhos, a esses alucinados do povo eleito por Deus, a essa comboiada de cegos mentais. Ouvirão apenas o seu próprio eco e ficarão entretidos a escrever uns aos outros, com insultos, exclamações, falsos factos e sem argumentos, sem ninguém lhes ligar. Nem é preciso apertar-lhes a garganta. Deixá-los a berrar. Eles vão nus. Não vale a pena perder o nosso precioso tempo.

 

 

Todos preocupadinhos com um dano colateral para os liberais-fascistas de Kiev que lançaram a guerra contra os federalistas russófilos, como se fosse um crime que nada tivesse a ver com a origem dessa guerra, mas nadinha preocupados com o massacre de civis na Faixa de Gaza por Israel e com os massacres de cristãos no Norte do Iraque pelos irmãos muçulmanos de Obama do Estado Islâmico ou Califado. 

A gravidade da coisa tem a ver com os olhos de quem a vê. Fascismo, medievalismo, estes retrocessos na civilização são bons desde que o Tio Sam fique satisfeito. Parabéns a todos vocês, ou por serem parolos ou por conseguirem enganar os parolos.


Mísseis Contra a Rússia

 

 

 

Mísseis Contra a Rússia

 

 

 

 

 

O facto de as pessoas que espumam da boca à vista de uma guerra contra a Rússia não parecerem assim tão básicas reside no processo de racionalização a que tiveram que sujeitar as suas fantasias de infância e de adolescência, porque, ao se confrontarem com as contradições e problemas reais e ao terem que se justificar perante os outros, precisam de argumentar e não apenas de declarar a sua paixão. 

As crianças admiram e temem os crescidos, incensam os grandes, fantasiam fins e meios de terem mais poder do que podem contra os maiores ou, reconhecendo que não podem tê-lo, optam por se abrigar sob o poder destes, que lhes parece quase mágico, tornando-se ciumentos se lhos tentam roubar (é o complexo de Édipo), habituam-se a gostar de ficções, não são capazes de avaliar senão em termos maniqueístas do bem e do mal, e, a partir daí, o mundo começa a parecer-lhes um filme. 

O problema é precisamente esse maniqueísmo: se não somos por eles, somos contra eles. Os EUA trouxeram ao mundo criações notáveis: a lâmpada eléctrica, os computadores, as viagens espaciais, a internet. O seu espírito de iniciativa é admirável, a vontade de autonomia das pessoas lá é de louvar. A sua paixão pelas armas não tanto.

A acrescentar a isto, os EUA desenvolveram uma subcultura de massas (mantenha-se o paradoxo) que é, pelo seu facilitismo estético, pelos simbolismos de licença sexual, de apelo ao uso de drogas, de festa permanente, de exibicionismo, narcisismo e de desprezo e oposição ao mundo do trabalho, gerando uma ficção de liberdade, a mais aditiva e alucinante de todos os tempos. Tendo começado por ser uma expressão de rebeldia, acabou por se tornar numa forma de alienação, um novo negócio capitalista e instrumento de domínio ideológico estadunidense à escala mundial, fazendo quase desaparecer as culturas do resto do mundo. 

Para a juventude, os EUA são uma festa eterna e tudo o que é bom - a renovação permanente e acelerada dessa festa - provém dessa América. Como não adorar essa grande fonte de hedonismo?! Junta-se, com uma força nunca vista, o poder à felicidade. O grande chefe passa a ser nosso comparsa da folia. E ele é que sabe como nos fazer felizes.

Porém, os EUA têm também um lado negro, o da sua estratégia de prender os outros povos aos seus interesses por via financeira, da apropriação das sua matérias-primas, da mão-de-obra barata e da guerra. Mas a atracção quase infantil pelo poder estadunidense impede-as de ver isto. É como se preferissem o lobo ao Capuchinho Vermelho. 

Mulheres Peshmergas (Peshmerga Army Woman) do Partido Curdistão Lutam Contra a Barbárie ISIS ou EIIL 

Prontas Para Combater o ISIS (Bárbaros de Etnia Sunita Apoiados pelos EUA e pela Arábia Saudita na Luta pela Liberdade Contra o Estado Sírio), as Peshmergas, um braço armado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, Independentista e Progressista. 
kurd"Opera Mundi - Com intensificação da ofensiva liderada pelo EIIL, governo iraquiano vem perdendo o controle de regiões no norte do país.


Forças curdas iraquianas anunciaram nesta quinta-feira (12/06) que tomaram controle total do norte da cidade petrolífera Kirkuk, após o exército e a polícia federal iraquiana abandonarem o local. De acordo com o porta-voz curdo, Jabbar Yawar, “toda Kirkuk está nas mãos dos peshmerga (tropas curdas)” e “nenhum exército do Iraque permanece em Kirkuk agora”.

A retirada do exército acompanha a intensificação da ofensiva dos insurgentes sunitas liderados pelo EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) na região. Nos últimos meses os ataques já deixaram centenas de mortos. Insurgentes sunitas estão avançando para as regiões mais ao sul, próximas a Bagdá, e regiões com maioria Xiita no Iraque.
Um representante da União Patriótica do Curdistão, Sadi Pire, afirmou que “os peshmerga tomaram as medidas adequadas para enfrentar qualquer eventual ataque”, e garantiu que a cidade está tranquila".








 

A Arte de Bem Contra-Argumentar de Peter Singer -

- A Guerra do Iraque: Falácias do Império 

 
Peter Singer
Universidade de Princeton

A resolução 1441 do Conselho de Segurança aprovada por unanimidade em Outono último atesta claramente que Saddam Hussein tem uma última oportunidade de desarmar o Iraque. Não desarmou. 
George W. Bush, Conferência de imprensa, 6 de Março de 2003

A liberdade do povo iraquiano é uma grande causa moral e um grande objectivo estratégico. O povo do Iraque merece-a. 
George W. Bush, falando às Nações Unidas, Setembro de 2002

 

Dois argumentos

A lenta preparação para o ataque norte-americano ao Iraque, em Março de 2003, deu a George W. Bush muitas oportunidades de esclarecer as ideias éticas subjacentes aos seus actos. Bush indicou dois argumentos distintos para entrar em guerra com o Iraque que podem ser colocados nos seguintes termos:
Primeiro argumento
O cessar-fogo que pôs termo à primeira Guerra do Golfo, em Abril de 2001, exigia que o Iraque desistisse das suas armas de destruição maciça e aceitasse a entrada de inspectores das Nações Unidas que examinariam e acompanhariam a destruição e retirada de armas químicas, biológicas e nucleares. O governo iraquiano, liderado por Saddam Hussein, aceitou estes termos, mas Saddam enganou o mundo, continuando a desenvolver armas de destruição maciça. Portanto, violara os termos do cessar-fogo e a coligação que lutara no Iraque em 2001 podia dar novo início às hostilidades.
Segundo argumento
Uma mudança de regime no Iraque libertaria o país de um tirano que fora, durante os longos anos da sua governação, responsável pelas mortes de centenas de milhares de iraquianos, permitindo ainda que outros permanecessem numa pobreza miserável enquanto ele canalizava as receitas petrolíferas para projectos militares e palácios extravagantes que satisfaziam o seu desejo de luxo.

Armas de destruição maciça e resoluções das Nações Unidas

O principal argumento a favor da guerra com o Iraque assentava na afirmação de que o Conselho de Segurança exigira que Saddam Hussein destruísse as armas de destruição maciça na sua posse, mas ele não o fizera. Parece agora provável que Saddam tinha destruído substancialmente, se não na totalidade, as suas armas de destruição maciça. Esse simples facto anula a principal razão que Bush apresentara para a guerra. Também coloca importantes questões quanto ao motivo que levou Bush a afirmar falsamente saber — insistindo mesmo que "não havia dúvida" — que Saddam possuía armas de destruição maciça. Mas suponhamos, num exercício puramente hipotético, que a declaração de Bush estava correcta e Saddam não se desarmara. Precisamos de aceitar este pressuposto para podermos analisar a base ética na qual Bush afirmou agir. A questão mais importante a colocar neste contexto é: se os factos fossem os que Bush afirmou serem, o ataque ao Iraque liderado pelos norte-americanos ter-se-ia justificado pela não observância da Resolução 1441 por parte do ditador iraquiano?
Conforme Bush declarou, a Resolução 1441, adoptada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em Novembro de 2002, dava ao Iraque "uma oportunidade derradeira de cumprir as suas obrigações de desarmamento nos termos das resoluções relevantes do Conselho". Para esse fim, exigia ao Iraque que aceitasse um sistema aperfeiçoado de inspecções. Uma vez aceite a presença dos inspectores por parte do Iraque, a questão central passava a ser determinar se o Iraque tinha ou não destruído as suas armas de destruição maciça, como afirmava. Mas a Resolução 1441 não era tão clara como o resumo em duas frases de Bush quer sugerir. A resolução solicita ao presidente executivo da Comissão de Inspecção, Verificação e Acompanhamento das Nações Unidas (UNMOVIC) a entrega de um relatório sobre a cooperação do Iraque com os inspectores e o cumprimento das suas obrigações de desarmamento, recordando àquele país que foi repetidamente advertido de que enfrentará "graves consequências" se continuar a violar as suas obrigações. Mas as últimas palavras da resolução declaram que o conselho "decide permanecer interessado na matéria". Esta redacção peculiar é utilizada por organismos como o Conselho de Segurança para indicar que mantêm um interesse particular por um assunto específico, não o tendo dado por concluído. A mesma redacção fora utilizada na Resolução 687, que declarara o cessar-fogo em 1991. O Conselho de Segurança afirmara, na altura, que "decide permanecer interessado na matéria e tomar outras medidas necessárias à implementação da presente resolução e à salvaguarda da paz e da segurança na região". Neste aspecto, a redacção quer da Resolução 687 quer da Resolução 1441 contrastam vivamente com as palavras da anterior Resolução 678, adoptada em Agosto de 1990, depois de o exército iraquiano ter invadido o Koweit. Assim, a Guerra do Golfo de 1991 foi travada sob os auspícios das Nações Unidas. Mas a fórmula utilizada na Resolução 687 e na Resolução 1441 indica que o conselho mantém uma consideração activa do assunto, não delegando num país, ou num grupo de países, a decisão sobre o cumprimento ou não, por parte do Iraque, das obrigações imputadas.
O facto de a Resolução 1441 não autorizar quaisquer países a agir foi igualmente salientado pela França, pela Rússia e pela China, que observaram, na altura da aprovação da resolução, que esta não continha qualquer "automaticidade" sobre o uso da força. Qualquer destes países poderia ter vetado a resolução, e tê-lo-ia provavelmente feito, se esta contivesse uma autorização automática do uso da força. Este mesmo ponto de vista foi manifestado por outros membros do Conselho de Segurança que não detêm poder de veto e aprovaram a Resolução 1441. Entre estes contam-se o México, a Irlanda, a Síria, a Bulgária, a Noruega, os Camarões e a Guiné. Muitos destes países sublinharam que a resolução fortalecia o papel do Conselho de Segurança na decisão de questões relativas à paz e à segurança internacionais. Por exemplo, o sumário oficial das Nações Unidas referia o representante mexicano, que afirmou que a aprovação da Resolução 1441 "fortalecia o Conselho, as Nações Unidas, o multilateralismo e um sistema internacional de normas e princípios". Acrescentava que considerava válido o uso da força apenas "como último recurso, com autorização prévia e explícita do Conselho".
Os representantes tanto dos Estados Unidos como do Reino Unido aceitaram que a Resolução 1441 não continha "gatilhos ocultos" nem "automaticidade" respeitantes ao uso da força, embora o representante norte-americano, John Negroponte, tivesse afirmado que também "não impedia qualquer estado-membro de agir para se defender da ameaça representada por esse país ou para implementar as resoluções relevantes das Nações Unidas e proteger a paz e a segurança mundiais". A observação de Negroponte sobre um país se defender da "ameaça" representada pelo Iraque parece sugerir uma justificação para a guerra fora do contexto das resoluções das Nações Unidas e, assim, um argumento de tipo diferente daqueles que estamos a analisar. A segunda parte das observações de Negroponte pressupõe a existência de uma resolução relevante das Nações Unidas a ser implementada, mas não indica que resolução seria essa, nem por que motivo assumiria os Estados Unidos, ou qualquer outro membro das Nações Unidas, a implementação de uma resolução que o Conselho de Segurança não lhe pedira que implementasse. O representante do Reino Unido concordou explicitamente que "Se existir nova violação iraquiana das suas obrigações de desarmamento, a matéria regressará ao Conselho, para discussão".
Tudo isto deixa claro que, no que diz respeito à Resolução 1441, o conselho esperava ser informado pelos seus inspectores de armamento, e estava preparado a tomar futuras decisões dependendo daquilo que lhe fosse comunicado. E foi isto que sucedeu nos quatro meses seguintes. Os inspectores informaram o Conselho de Segurança dos seus progressos, em várias ocasiões. O Iraque negou possuir quaisquer armas de destruição maciça. Embora não tenha fornecido documentação completa sobre o que acontecera a parte dos agentes químicos e biológicos que outrora possuíra, os inspectores não conseguiram encontrar provas de que os iraquianos estivessem a mentir. Os relatórios dos inspectores indicam que, após um início lento, o Iraque revelava, em Fevereiro, uma cooperação significativa. Quando os inspectores descobriram (usando informação cedida pelo Iraque) que um dos mísseis iraquianos tinha excedido ligeiramente, durante testes militares, o alcance de cento e cinquenta quilómetros estabelecido nos termos do cessar-fogo, o Iraque concordou em destruir os mísseis, e tinha já destruído sessenta e cinco, ou mais de metade do total, na data do ataque norte-americano.
Bush declarou taxativamente que Saddam "não desarmara". Noutros discursos, Bush repetiu, vezes sem conta, que Saddam "tem armas de destruição maciça". No discurso em que fez o seu ultimato de quarenta e oito horas, afirmou: "As informações colhidas por este e outros governos não deixam dúvidas de que o regime iraquiano continua a possuir e ocultar algumas das mais letais armas alguma vez concebidas". Mesmo na altura destas declarações, havia boas razões para duvidar das provas que a administração de Bush apresentou para apoiar estas afirmações. No seu discurso do Estado da União de 2003, Bush disse: "O governo britânico soube que, recentemente, Saddam Hussein tentou adquirir em África quantidades significativamente de urânio" e prosseguiu, afirmando que Saddam tentara comprar tubos de alumínio fortalecido próprios para a produção de armas nucleares. A apoiar a afirmação de que Saddam tentara importar urânio de África, Colin Powell apresentou às Nações Unidas documentos que, supostamente, mostravam que o Iraque tentara adquirir quinhentas toneladas de urânio ao Níger. Depressa se demonstrou — antes do início da guerra e como Powell e a Casa Branca admitiram — que estes documentos eram falsificações grosseiras. Um dos documentos, datado de Outubro de 2000, ostentava a assinatura de um homem que, na altura, já não detinha o cargo de ministro dos negócios estrangeiros do Níger há vários anos. As outras provas que Bush e Powell apresentaram não eram conclusivas. Por exemplo, conforme afirmaram mais tarde Hans Blix e Mohamed Elbaradei, chefes dos inspectores de armamento, nunca se apresentou qualquer prova de que os tubos de alumínio a que Bush fizera referência se destinassem a algo que não a produção de mísseis convencionais.
As informações secretas a que Bush aludira não eram fidedignas e podiam assim ser consideradas antes do início da guerra. Nestas circunstâncias, era completamente razoável que a França, a China e outros membros do Conselho de Segurança fossem de opinião de que as inspecções deveriam prosseguir, por forma a estabelecer se Saddam tinha ou não procedido ao desarmamento. Apesar da indignação americana face à ameaça francesa de vetar uma resolução que autorizasse um ataque ao Iraque — indignação que chegou ao ponto absurdo de os cidadãos americanos boicotarem os bens franceses e passarem a designar as "french fries" como "freedom fries"1 — o presidente francês Jacques Chirac tinha boas razões para resistir à pressa de Bush para entrar em guerra. Chirac considerava que Bush e Powell não tinham conseguido provar, de uma forma que justificasse a guerra, que o Iraque estava a violar as suas obrigações nos termos da Resolução 1441. Os acontecimentos posteriores vieram mostrar que Chirac tinha razão e Bush e Powell estavam errados.
No entanto, seja qual for a perspectiva que se assuma relativamente às provas, não competia aos Estados Unidos nem a qualquer outro país decidir se o Iraque estava ou não a cumprir as suas obrigações. (De modo semelhante, a decisão sobre o cumprimento ou não por parte de Israel das resoluções das Nações Unidas respeitantes aos territórios ocupados não compete, por exemplo, à Rússia.) Nos termos da Resolução 1441, o Conselho de Segurança reservara-se o direito de tomar ele próprio a decisão, decidindo também no tocante à natureza das consequências que adviriam se se descobrisse que o Iraque não estava a cumprir as suas obrigações. Foi por isso que a administração de Bush tentou tão esforçadamente obter uma segunda resolução declarando que o Iraque não desarmara e autorizando o uso da força contra este país. Quando se tornou evidente que a França, e talvez também a Rússia e a China, utilizariam o seu veto para impedir a aprovação de tal resolução, a administração começou a sugerir que, se uma maioria votasse a favor da resolução, isso daria alguma autoridade moral às medidas tomadas à luz desta, mesmo que um veto impedisse a sua aceitação formal por parte do conselho. Trata-se de uma proposta a que os Estados Unidos seguramente se oporiam, fosse ela feita por outro país nas setenta e duas ocasiões em que a América fez uso do veto. (Só a antiga União Soviética utilizou mais vezes o veto.) E quando — apesar dos denodados esforços tanto de Bush como do primeiro-ministro britânico Tony Blair — se tornou evidente que nem sequer haveria uma maioria a autorizar o uso da força, Bush agiu como se, de qualquer modo, não fosse necessária uma segunda resolução. Robin Cook, líder da Câmara dos Comuns até se ter demitido em protesto pela atitude de Blair relativamente ao Iraque, tinha seguramente razão quando afirmou, na explicação fornecida pela sua demissão: "Aplaudo os esforços determinados do primeiro-ministro e do secretário dos negócios estrangeiros para a existência de uma segunda resolução. Agora que essas tentativas redundaram em fracasso, não podemos fingir que obter uma segunda resolução não era importante."
O procurador-geral do Reino Unido, Lorde Goldsmith, emitiu uma declaração na qual esboçava uma base legal para o uso de força contra o Iraque. Afirmava que, se o Conselho de Segurança, ao aprovar a Resolução 1441, tivesse tencionado exigir uma segunda resolução para autorizar o uso da força contra o Iraque, tê-lo-ia deixado claro no texto. O facto de não o ter feito significa, segundo Lorde Goldsmith, que "tudo o que exige a Resolução 1441 é que seja comunicado ao Conselho de Segurança e aí discutido o incumprimento por parte do Iraque, mas não uma outra decisão expressa relativa à autorização da força". No entanto, logicamente, poder-se-ia igualmente argumentar que se o Conselho de Segurança tivesse considerado não ser necessária uma segunda resolução, tê-lo-ia declarado expressamente. De qualquer modo, a interpretação de Lorde Goldsmith sugere que o Conselho de Segurança estava a pedir aos inspectores que o mantivessem informado sobre o cumprimento ou incumprimento por parte do Iraque, e planeava discutir a questão, mas, ao mesmo tempo, estava disposto a deixar a decisão sobre o uso da força a países-membros que agissem de moto próprio. Por que motivo estaria o Conselho de Segurança de transformar-se intencionalmente num mero fórum de discussão, enquanto as decisões relevantes eram tomadas noutro local? Vaughan Lowe, Professor Chichele de Direito Público Internacional na Universidade de Oxford, e vários outros proeminentes professores britânicos de direito, assumiram uma perspectiva diferente, e seguramente mais plausível: "Nada há na resolução que atribua a alguém que não o próprio Conselho de Segurança o direito de decidir quando se esgotaram as alternativas." Lorde Goldsmith estava a tentar valorosamente encontrar uma base legal para as medidas prestes a serem tomadas pelo conselho de ministros de Tony Blair, do qual fazia parte, mas, como sublinharam os professores de direito, a sua interpretação era desprovida de sentido, sendo incompatível com as palavras do próprio representante britânico nas Nações Unidas no dia em que a Resolução 1441 fora aprovada.
Como referi, havia outros argumentos a favor da guerra com o Iraque, além da afirmação de que a guerra se justificava de forma a implementar as resoluções das Nações Unidas. Uma vez que ainda não considerámos esses argumentos, seria incorrecto decidir nesta fase se a guerra foi ou não eticamente justificada. Ainda assim, o processo através do qual a administração de Bush apresentou a sua argumentação a favor do desarmamento do Iraque às Nações Unidas, e, depois, quando não conseguiu impor ali o seu ponto de vista, resolveu avançar ainda assim, não coloca Bush a uma luz muito favorável. Parece que Bush apoiou a Resolução 1441 porque esperava que o Iraque recusasse os requisitos severos relativos às inspecções. Era uma previsão razoável, uma vez que Saddam se recusara já, anteriormente, a aceitar inspecções mais minuciosas. Sem dúvida que Bush pensou que a recusa de Saddam em aceitar os inspectores forneceria uma justificação para o derrube deste pelos Estados Unidos com o aval das Nações Unidas. Efectivamente, enquanto Bush se dirigia às Nações Unidas, as forças militares sob o seu comando encontravam-se já a "amolecer" o Iraque para a guerra iminente: entre Junho de 2002 e inícios de 2003, a Força Aérea norte-americana bombardeou os centros de comando iraquianos, os radares e as redes de fibra óptica, largando mais de seiscentas bombas em cerca de trezentos e cinquenta alvos seleccionados. Embora na altura estes ataques fossem justificados como reacção às violações iraquianas de uma zona aérea interdita estabelecida pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha no Sul do Iraque, o Tenente-General Michael Moseley, comandante-chefe da guerra aérea contra o Iraque, admitiu posteriormente que esta justificação era, pelo menos em parte, espúria, uma vez que os iraquianos estavam a reagir a ataques americanos mais agressivos que preparavam conscientemente o caminho a uma ofensiva militar contra o Iraque.
Quando, para surpresa de Bush e seus conselheiros, Saddam aceitou a presença dos inspectores, que depois se revelaram incapazes de apresentar provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque, Bush considerou apreensivamente que, se as inspecções prosseguissem naqueles moldes, deixaria de ter quaisquer motivos para atacar Saddam. Por isso apresentou uma justificação diferente para o ataque. Duas semanas antes da eclosão da guerra, Mark Knoller, jornalista da CBS News, perguntou a Bush se temia que os Estados Unidos pudessem ser vistos como estando a desafiar as Nações Unidas, se avançassem com uma acção militar sem a autorização explícita daquele organismo. Nessa ocasião, Bush não recorreu aos pormenores relativos a resoluções anteriores das Nações Unidas para afirmar a legitimidade de um ataque. Ao invés, respondeu:
Estou confiante em que o povo americano compreende que, quando é a nossa segurança que está em jogo, se precisarmos de agir, agiremos, e não precisamos realmente da aprovação das Nações Unidas para o fazermos […] ao entrarmos no século XXI, Mark, quando é a nossa segurança que está em jogo, não precisamos realmente da autorização de ninguém.
Como indica este comentário, a verdadeira justificação de Bush para a invasão do Iraque não reside no seu empenho na defesa do direito internacional. Ao dirigir-se às Nações Unidas, ele não o faz de boa-fé. Como alguém que aceita a arbitragem numa disputa porque espera que a decisão lhe seja favorável, mas não tem qualquer intenção de a acatar caso isso não se verifique, Bush apresentou a sua argumentação às Nações Unidas mas tinha já decidido agir, independentemente da decisão tomada por este organismo.
A má-fé numa questão tão séria apresentada às Nações Unidas é uma falha ética grave. Mas há uma acusação ainda mais grave a ser considerada. Como referi no início deste capítulo, as declarações de Bush sobre "o vasto arsenal de armas letais, biológicas e químicas" de Saddam revelaram-se falsas. Provavelmente, algumas das principais figuras da administração de Bush sempre souberam que estas afirmações não tinham fundamento. Em Fevereiro de 2001, num encontro com a imprensa no Cairo após se ter avistado com líderes egípcios, Colin Powell afirmou:
Tivemos uma valente discussão […] acerca da natureza das sanções — o facto de as sanções existirem — não com a finalidade de prejudicar o povo iraquiano, mas para manter sob controlo as ambições de Saddam Hussein relativamente ao desenvolvimento de armas de destruição maciça […] e, francamente, foram bem sucedidas. Saddam não desenvolveu qualquer capacidade militar significativa, no que diz respeito a armas de destruição maciça. Não consegue lançar armas convencionais contra os seus vizinhos.
Por que razão Powell falou de forma tão diferente, dois anos depois? Terá sido porque, pelo menos em Julho de 2002, já se tomara a decisão de atacar o Iraque, baseada em considerações que não a convicção do perigo representado pelas armas de destruição maciça do Iraque? Segundo Richard Haass, então director do centro de delineamento de políticas do Departamento de Estado, foi por volta desta altura que Condoleezza Rice lhe disse que opor-se à decisão seria uma pura "perda de tempo". Se a decisão já fora tomada nessa altura, parece claro que, depois, a administração não estaria a procurar a verdade sobre as armas do Iraque de uma forma objectiva.
Esta conclusão é fortemente apoiada pelo testemunho de Joseph C. Wilson, antigo diplomata americano no Iraque e em vários países africanos. Wilson afirmou que, em Fevereiro de 2002, lhe foi pedido pela CIA que investigasse um relatório sobre a tentativa de compra de urânio ao Níger por parte do Iraque. O gabinete do Vice-Presidente Cheney estava interessado em tirar os factos a limpo, disseram a Wilson. Por conseguinte, viajou até ao Níger, investigou a questão, e concluiu que os relatórios eram "muitíssimo duvidosos". Era muito pouco provável que o Iraque tivesse tentado comprar urânio ao Níger. O embaixador norte-americano no Níger concordava com esta conclusão e tinha já enviado a Washington um relatório nestes termos. Wilson, evidentemente, forneceu um relatório pormenorizado à CIA, e, mais tarde, comunicou as suas conclusões ao Departamento de Estado. Em Outubro, a Avaliação Nacional das Informações sobre o Iraque, um documento secreto da CIA, incluía a seguinte frase: "Por fim, as afirmações relativas à procura de urânio natural em África por parte do Iraque são [segundo avaliação do Gabinete de Informações e Investigação do Departamento de Estado] muitíssimo duvidosas." Nesse mês, a CIA enviou dois memorandos à Casa Branca exprimindo dúvidas acerca das afirmações. Um foi dirigido ao conselheiro adjunto para a segurança nacional de Bush, Stephen J. Hadley, e o outro ao seu redactor principal de discursos, Michael Gerson. George Tenet, director da CIA, também telefonou a Hadley antes de o presidente fazer um discurso em Cincinnati, a 7 de Outubro, pedindo que fosse retirada a alegação. Ainda assim, em Janeiro de 2003, no mais solene e bem preparado discurso que profere anualmente, o discurso do Estado da União, Bush referiu-se à tentativa por parte do Iraque de aquisição de urânio em África como uma importante prova da sua convicção de que o Iraque estava a tentar obter armas nucleares. Segundo The Washington Post, os responsáveis da administração que trabalharam sobre o discurso haviam querido, inicialmente, incluir uma referência específica ao Níger, mas substituíram-na pela referência vaga a "África", depois de terem sido informados pela CIA da existência de problemas relativamente às informações respeitantes ao Níger. Todavia, se a informação mais específica que apoiava esta afirmação não era fidedigna, por que motivo os responsáveis da administração não consideraram retirar todas as referências à tentativa de aquisição de urânio por parte do Iraque? Se tivessem aprofundado a investigação, teriam sido informados das várias razões que levavam a duvidar que o Iraque tivesse tentado comprar urânio a qualquer país africano.
Levanta ainda mais suspeitas o facto de, apenas alguns dias passados sobre o discurso do Estado da União de Bush, o Secretário de Estado Colin L. Powell ter passado em revista toda a informação relativa à alegada compra de urânio em África pelo Iraque e ter decidido que esta não era suficientemente fidedigna para utilizar no discurso que proferiu perante as Nações Unidas uma semana depois do discurso de Bush. Se Powell formou esta opinião, é razoável supor que a teria mencionado a Bush ou a um dos seus colaboradores. Isto passou-se ainda seis semanas antes de os Estados Unidos atacarem o Iraque. Entretanto, a afirmação de que o Iraque estava a tentar comprar urânio a África fora já feita não só pelo presidente, mas também pela sua Conselheira para a Segurança Nacional, Condoleezza Rice, pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e pelo Secretário Adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz. A Casa Branca retractou-se finalmente em Julho, quando a guerra estava terminada e Wilson divulgara a sua viagem a África. Por que razão Bush não reconheceu — quando o país e as Nações Unidas estavam ainda a decidir se avançariam para a guerra — que parte da sua argumentação contra o Iraque se baseava numa informação que não podia ser comprovada?
Como vimos, a argumentação que a administração de Bush apresentou para mostrar que o Iraque violava as suas obrigações incluía outras provas questionáveis. Uma delas era a afirmação de que o Iraque estava a tentar comprar tubos de alumínio cujas características os tornavam adequados apenas à utilização numa centrifugadora, equipamento usado para enriquecer urânio. Esta afirmação foi proferida apesar da informação fornecida pelo próprio Departamento de Energia da administração de Bush de que os tubos possuíam as características erradas para serem usados numa centrifugadora, e um parecer do Gabinete de Informações e Investigação do Departamento de Estado a sugerir que os tubos, provavelmente, se destinavam a um sistema de lançamento múltiplo de foguetes, que o Iraque não fora proibido de possuir. Outra afirmação mais tarde denunciada como falsa foi que "o Iraque estava em condições de lançar um ataque biológico ou químico quarenta e cinco minutos depois de ter sido dada a ordem". Esta afirmação, originalmente feita pelo governo britânico, foi repetida duas vezes por Bush sem que a CIA tivesse confirmado a alegação, num discurso proferido no Roseiral em Setembro de 2002, e numa comunicação radiofónica nesse mesmo mês.
Além da questão das armas de destruição maciça, a outra alegação feita pela administração de Bush sobre o Iraque referia a existência de uma ligação entre Saddam Hussein e a Al Qaeda. Ao apresentar ao povo americano a sua argumentação a favor da guerra com o Iraque, Bush relacionou repetidamente Saddam Hussein e a Al Qaeda, sem fornecer qualquer prova real de tal ligação. A notícia da realização de um encontro de Mohamed Atta, um dos terroristas envolvidos nos ataques de 11 de Setembro de 2001, com um representante do regime iraquiano em Praga foi posteriormente desmentida pelo governo checo. No seu discurso do Cincinnati de 7 de Outubro de 2002, Bush disse "soubemos" que o Iraque treinou elementos da Al Qaeda "no fabrico de bombas, venenos e gases letais". Afirmou também que os líderes da Al Qaeda tinham fugido do Afeganistão para o Iraque e, em particular, que "um líder muito importante da Al Qaeda" recebera nesse ano tratamento médico em Bagdade. Contudo, a Avaliação Nacional das Informações sobre o Iraque, o documento secreto da CIA que fora concluído pouco tempo antes do discurso de Bush no Cincinnati, chamava a atenção para o facto de, relativamente às ligações entre o Iraque e a Al Qaeda, os dados dos dissidentes iraquianos e dos elementos da Al Qaeda capturados serem contraditórios e não fidedignos. Indicava também que os contactos entre o Iraque e a Al Qaeda haviam ocorrido no início da década de 1990, nos primórdios da Al Qaeda, e que, tanto quanto se sabia, esses contactos não tinham conduzido a qualquer relação conhecida, persistente e de alto nível entre o Iraque e a Al Qaeda. No que respeitava ao "líder muito importante da Al Qaeda" que recebera tratamento médico em Bagdade, a Avaliação Nacional das Informações declarava que, embora se tivesse relacionado ocasionalmente com seguidores da Al Qaeda, ele próprio não pertencia a esta organização. Meses depois da guerra, não viera a público qualquer prova real de cooperação entre o Iraque e a Al Qaeda em actividades terroristas. Por outro lado,The New York Times revelou que dois líderes da Al Qaeda, capturados pelos Estados Unidos, haviam revelado independentemente à CIA que a sua organização não trabalhava com Saddam Hussein. A administração de Bush não tornou públicas estas declarações. Quatro dias depois de Bush ter proferido o seu discurso em Cincinnati, alegando que havia uma ligação entre o Iraque e a Al Qaeda, o Congresso aprovou a concessão de autoridade a Bush para encetar uma guerra com o Iraque.
A impressão global com que se fica a partir desta e de outras revelações é que, em vez de avaliar objectivamente as informações que recebia sobre a posse ou não de armas de destruição maciça por parte do Iraque e possíveis contactos com a Al Qaeda, e depois decidindo as medidas necessárias, a administração de Bush decidiu as medidas que queria tomar e depois seleccionou e "trabalhou" as informações para que estas apoiassem as referidas medidas. Depois de analisar o destino das informações que enviou, Joseph Wilson conclui: "pode defender-se um argumento legítimo de que entrámos em guerra com base em informações falsas". Dificilmente poderá haver acusação mais grave feita ao presidente dos Estados Unidos e à sua administração do que a de ter enganado o Congresso, os seus próprios concidadãos e os governos e povos de todo o mundo para poder encetar uma guerra que provocou a morte de milhares de pessoas, incluindo pelo menos três mil civis, e mutilou e feriu, ou desalojou, outras dezenas de milhares.
Depois de finda a guerra, soube-se que, no culminar dos preparativos norte-americanos para a guerra, a administração de Bush foi informada por um homem de negócios libanês-americano de que Saddam Hussein estava disposto a dar aos americanos grande parte do que estes queriam. O homem de negócios fora informado pelo chefe dos serviços secretos iraquianos que Saddam não possuía armas de destruição maciça e estava disposto a deixar que as tropas americanas conduzissem uma busca. Os iraquianos ofereciam-se ainda para entregar aos americanos um homem procurado por suspeita de ter participado na tentativa de fazer explodir o World Trade Center em 1993. Mas o mais extraordinário era comprometerem-se a realizar eleições. Em resultado destas aberturas, Richard Perle, conselheiro do Departamento de Defesa, viajou até Londres para se encontrar com o homem de negócios. Este insistiu no sentido da realização de uma reunião directa de Perle, ou outro representante dos Estados Unidos, com os líderes iraquianos. Perle fez chegar esta mensagem aos responsáveis da administração de Bush, mas estes ignoraram a abertura iraquiana. Segundo Perle, "A mensagem foi: "Diz-lhes que nos encontraremos com eles em Bagdade.""
Embora seja impossível saber se os iraquianos eram sinceros na sua oferta para negociar, a reacção da administração de Bush à oferta encaixa-se no padrão que já observámos. A administração não estava interessada em negociações pela mesma razão que não estava interessada em provas que lançassem dúvidas sobre a existência das armas de destruição maciça de Saddam. Já se tinha decidido pela guerra. Esta esteve muito longe de ser uma guerra em último recurso.