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Filosofia da Terra

Furar o Nevoeiro da Ideologia Burguesa. O Bem, a Verdade e o Belo - Paradigmas Unidos da Vida. Um Olhar e uma Voz Diferentes, Livres, Progressistas e Revolucionárias. Filosofia, Artes, Política, Acontecimentos, Reflexões.


Não se trata de um esquema de classificação de todas as obras de arte (grande parte delas terá dificuldade em enquadra-se nele) mas apenas de esquematizar uma maneira, entre outras válidas, talvez tantas quanto as inúmeras correntes artísticas, de pensar a arte na sua relação com a vida real, em termos de oposição e de integração. Para mais, não tem em conta os períodos históricos de criação, as suas circunstâncias sociais e nacionais, a idiossincrasia do autor, assim como a frequente interpenetração de diversas dimensões e propósitos na produção concreta das obras. Uma forma contemplativa pode, na sua circunstância e fase histórica possuir mais poder crítico e mesmo de transformação, directa ou indirecta, do que uma obra crítica realista ou naturalista, a qual, por sua vez é susceptível de soçobrar em estereótipos preconceituosos e retrógrados; uma obra artística de transformação social pode revestir-se de formas mais ou menos abstractas e contemplativas. 
Não há esquema que sobreviva à prova da realidade. Os esquemas simplificam e isolam um aspecto ou uma relação, separando-os do todo da realidade, e as teorias que não têm em conta a mudança convertem esse aspecto ou essa relação em algo eterno e imutável, fazendo de uma certa dimensão relativa o fundamento e a essência permanente dessa realidade complexa. Uma teoria sólida é aquela que analisa a realidade concreta através das suas relações concretas em devir, em mudança. 
A- Arte Contemplativa. Afasta-se do problema das contradições entre sujeito e objecto, entre indivíduo e sociedade, entre as classes sociais e entre costumes e valores opostos. Representa uma visão que se procura neutra, mais do que destacar causas, motivos e razões. Na sua vertente impressionista, tende mais para a descrição e para o detalhe, como se quisesse mostrar as coisas como são antes do sujeito impor ao seu olhar um sistema de valores, a expressão de sentimentos, uma teoria de interpretação ou um modelo de representação. Na sua vertente abstracta, na qual se inclui uma corrente expressionista, é menos contemplativa mas só activa no intelecto e nos sentimentos, nunca na crítica e muito menos na transformação da vida real. Joga com a composição e a decomposição das formas do visível para o analisar, tornar expressivo, sugestivo, para o simbolizar ou idealizar. Em todas as suas versões, a arte contemplativa quer apenas olhar para a essência do ver, do Espírito ou do Ser. Exemplos são as pinturas de Monet e de Cézanne, as telas de Barnet Newman, os romances de Virgínia Wolf e de James Joyce, as composições musicais de Debussy e de Ravel.

B- Arte Crítica. Constrói métodos de análise e síntese, de exposição e expressão das contradições reais, económicas, sociais, políticas, psicológicas e espirituais, e propõe novos modos de ver, de expressar, de representar e de pensar o mundo e a vida. Não pretende fazer parte da vida real, de que se considera um espelho crítico, não almeja ser um momento da acção prática, da vida real e da sua transformação, mas quer apenas representar os seus problemas, chamar a atenção para eles e, no máximo, sugerir mudar de vida e de mundo. Exemplos são os teatros de Ibsen e de Tchekov, os romances de Stendhal e de Eça de Queirós, as novelas e contos de Camus, os quadros surrealistas de Max Ernst.


C- Arte de Transformação. Aos métodos elaborados pela arte crítica acrescenta a função transformadora da própria vida e do mundo, constituindo-se como um momento da vida real, como um incentivo à transformação mas também como uma forma de acção interpessoal e social, introduzindo-se, através das suas criações, na existência quotidiana, influenciando-se e transformando-se reciprocamente. Deixa de haver a dicotomia entre artista e contemplador, cada um participando, de alguma maneira, no papel do outro. É quando a arte vai para a rua, está nas fábricas, nas escolas e quando os espectadores sobem ao palco para, em todos esses lugares, mudarem  o seu modo de obrar e até as suas vidas. Tendo a sua raiz na Comedia Delle Arte, esta tendência artística quer ser vida e mudar a vida e o mundo. É uma arte que ainda está por cumprir, mas há tentativas de que são exemplos as lições, melhores ou piores, da música de Wagner, dos teatros de Meyerhold, de Brecht e de Cantor.


D- Arte de Escapatória. É, aparentemente, o divertimento pelo divertimento. Através de técnicas de fantasia, de alucinação e de transe, o indivíduo distrai-se da vida deprimente que leva, ou até da simples rotina, podendo assim, mediante tais ofertas compensatórias de fuga à realidade, continuar a aceitá-la acriticamente ou a não procurar maneiras reais de tornar a sua existência menos rotineira. Estes entretenimentos têm muitas vezes uma aparência de seriedade, apresentando uma mensagem moral. Porém, esta é sempre tão formal, tem sempre a forma de uma regra tão geral que apenas expressa uma ideia de como as pessoas se devem sempre conduzir civilizadamente em qualquer circunstância. Não tem, pois, pela sua abstracção, eficácia na compreensão dos factos concretos da realidade concreta nos seus problemas concretos, nas suas circunstâncias históricas e sociais. Os seus enredos têm com frequência o esquema do herói e do vilão, que personificam o cumprimento ou a violação dos mandamentos morais. São exemplos os filmes, romances e teatros que nos levam para um mundo imaginário, que sabemos ter pouco a ver com aquilo que é a nossa existência quotidiana e com os problemas enfrentados pelo mundo autêntico.



E- Arte de Reforço. Nela o indivíduo afunda-se na representação acrítica e meramente descritiva da vida, muitas vezes com exageros que entusiasmam os preconceitos, com formas esquemáticas de enredo e com estereótipos de tipo, de carácter e de conduta. É uma maneira de fazer arte que justifica um modo de vida pelo simples facto de mostrar que existe, pois não abre a mente para outras possibilidades. É uma arte que leva à amargura, ao cinismo, à inveja e à fatalidade. É assim a vida - eis a moral da sua história. 


F- Arte de Distracção. Não é por ela que vem mal ao mundo. Herdeira da arte folclórica, é o caso da música de discoteca ou de festivais populares, que serve para alegrar o convívio e desinibir as gentes.